Leitura Dinâmica e Velocidade do Estudo: Ficção ou Realidade?

 

Vale a pena utilizar a leitura dinâmica nos estudos para concursos públicos e exames? Vale a pena investir na compreensão e domínio desta forma de leitura? Qual a eficácia e o custo-benefício? É eficiente?

O objetivo do presente texto consiste em na apresentação de algumas considerações e ponderações sobre a leitura dinâmica, bem como sobre a conveniência ou não de sua aplicação aos estudos para concursos públicos e exames.003

Primeiramente, registro que faz um bom tempo que venho refletindo e pesquisando o tema, bem como avaliando a pertinência de escrever sobre o assunto, expondo as considerações que serão tratadas no texto, por considerar delicado e polêmico. E saliento desde já que, como em relação a todos os outros temas trabalhados, a intenção não é apresentar verdades absolutas e universais, mas apenas e tão somente tecer ponderações e provocar reflexões, para que, a partir daí, cada um tire as suas próprias conclusões, considerando sua realidade e particularidades.

Todos passamos atualmente pela angústia, por vezes desesperadora, relacionada ao tempo.Estamos sempre em busca do aumento na velocidade de leitura. Principalmente considerando que vivemos a era da velocidade, na qual tudo deve ser rápido, fácil, ir direto ao ponto, ser pouco oneroso e, de preferência, grátis. Não apenas em termos financeiros, mas inclusive em termos intelectuais e cognitivos.

No caso da preparação para concursos públicos essa angústia é ainda maior. Inclusive, mesmo tendo superado tal etapa, nunca deixei de viver essa angústia. Sempre que estou cumprindo a minha rotina de estudos, até hoje, tenho a sensação de que gostaria de ser mais rápido, para poder consumir cognitivamente mais. A fome de conhecimento é insaciável!

Porém, quando me preparava para concursos públicos o problema era maior. Todos os dias tinha vontade de ser uma máquina cognitiva para estudar tudo muito rapidamente, de modo a poder avançar ainda mais no edital e nas fontes de estudo. Se havia uma prova marcada o desespero aumentava!

Se você passa por isto e se identifica com o que estou dizendo, saiba que sei exatamente o que sente, pois vivi – e de certa forma ainda vivo, intensamente estas sensações.

Portanto, é ponto pacífico que queremos aumentar nossa velocidade de leitura e estudo em geral.

Daí, quando aparece uma solução que vem atender este legítimo e natural anseio, estamos de braços abertos e com total receptividade para abarcá-la.

É nesse contexto que precisamos avaliar e refletir sobre a leitura dinâmica, bem como sobrequalquer outro recurso ou solução que prometa o aumento da nossa capacidade de leitura e cognição.

Muito bem, inicialmente, precisamos partir do conceito de leitura, na sua concepção tradicional. Conceitualmente, segundo o neuropsicólogo português Vitor da Fonseca, a leitura“… implica em processar letras que têm categorizações fonológicas específicas para serem decodificadas e compreendidas. De um processo de captação visual, o cérebro tem em seguida de categorizar formas de letra com sons, por meio de processos auditivos complexos a fim de inferir significações cognitivas contidas em palavras que compõe um texto” (Cognição, Neuropsicologia e Aprendizagem. Petrópolis: Vozes, 2007, p. 153).

No plano neurofisiológico, segundo sustenta o Prof Ivan Izquierdo, “…uma experiência visual penetra pela retina, é transformada em sinais elétricos, chega através de conexões neurais ao cortéx occipital e lá causa uma série de processos bioquímicos hoje bastante conhecidos” (IZQUIERDO, Ivan.Memória. Porto Alegre: Artmed, 2002, pág 17).

Adotando uma abordagem mais ampla, conforme sustenta a professora espanhola e psicóloga educacional Isabel Solé, em obra específica sobre estratégias de leitura, há três modelos para a compreensão do processo de leitura, os quais correspondem ao ascendente (bottom up), descendente (top down) e interativo (Estratégias de Leitura. Porto Alegre: Artmed, 1998, p. 22).

No modelo ascendente ocorre uma decodificação de cada parte do texto, ou seja, letras e palavras, partindo das partes e passa-se à compreensão do todo. No modelo descendente,as partes e a decodificação perdem importância, diante da preocupação exclusiva com a compreensão do todo. Já no modelo interativo, ostentando caráter misto, existe a preocupação em compreender o todo, sem deixar de ter importância a decodificação.

É exatamente no modelo descendente puro que se situa as estratégias de leitura dinâmica.

Outro conceito importante para a compreensão do processo de leitura consiste na idéia das rotas de leitura.

Teoricamente, existem duas possíveis rotas de leitura, quais sejam, a rota fonológica e a rota lexical. Na primeira (fonológica), após a captação visual das letras e palavras há uma conversão sonoro-mental de sílaba por sílaba ou letra por letra, para depois avançar a decodificação. Na rota léxica, do contato visual da palavra já se passa à decodificação, sem se importar com as letras. (ASSENCIO, Vicente J Ferreira. O que todo professor precisa saber sobre Neurologia. São José dos Campos: Pulso, 2005, p. 46).

Quando vemos a frase “o sbão etsá mituo pqno” e lemos como “o sabão está muito pequeno”, estamos utilizando a rota lexical.

Também no caso da leitura dinâmica há uma prevalência de uso da rota lexical.

Em termos lingüísticos, as letras são unidades que vão compor palavras, sendo que as palavras são unidades de significados que vão compor textos. Assim, as referidas unidades somente podem fazer sentido quando agrupadas.

Com a leitura dinâmica procura-se adotar uma lógica seletivo-excludente quanto aos códigos-letras que formam as palavras e as palavras que formam o texto.

Neste sentido, considero que tal sistemática, quanto ao presente aspecto, pode gerar um risco de comprometimento do contato consciente com letras e palavras importantes. Um exemplo no caso de matérias jurídicas seria trocar remissão por remição ou mandato por mandado.

Mas diante dos mencionados esclarecimentos e considerações, a grande pergunta que continua sem resposta é: vale a pena?

Bem, como já esclarecido, não darei esta resposta. É você deve encontrar a sua própria resposta a partir dos elementos trabalhados.

 

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Uma primeira questão relevante a merecer consideração e reflexão crítica consiste na avaliação da tese de que a velocidade do movimento lateral dos olhos determina o aumento da velocidade da leitura. Minha aposta é de que esta hipótese não se confirma. Não acredito na existência de fundamentos que indiquem a verdade quanto a isto.

O primeiro fundamento é de que, na realidade, não lemos com os olhos. A retina apenas capta a imagem. Lemos, na verdade, com uma parte funcional do cérebro chamada córtex do processamento visual. E nesta atividade também há algum envolvimento do córtex auditivo. Tudo isto fica localizado, em termos de estrutura anatômica, no lobo ociptal.

Daí porque alguns neurocientistas costumam afirmar que lemos muito mais com o lobo ocipital do que com os olhos.

Outro fundamento, quanto à não confirmação da hipótese de que a velocidade de movimentação dos olhos determina a velocidade da leitura, seria considerar que, caso fosse verdade, os portadores de dislexia poderiam resolver o problema treinando a movimentação dos olhos. A dislexia consiste num distúrbio de aprendizagem, correspondendo à incapacidade de decodificação de letras. Para entender um pouco mais sobre este drama, sugiro o espetacular filme indiano denominado “Como Estrelas na Terra” .

Mas resumindo, entendo que não há fundamento para sustentar que a velocidade dos olhos não se confunde com velocidade de decodificação de palavras.

Exatamente nesta direção, corroborando a referida tese, conforme sustentam os psicólogos cognitivos Michael W. Eysenck e Mark T. Keane, em tratado de psicologia cognitiva, “…temos a impressão de que os nossos olhos se movem suavemente através da página enquanto lemos, mas a impressão é um tanto equivocada…”. (Psicologia Cognitiva. : Artes Médicas, p. 272).

A tese dos referidos autores serve de fundamento para a minha principal suspeita ou hipótese quanto à velocidade da leitura: considerando o fenômeno da plasticidade, quanto mais estudamos e lemos, mais naturalmente aumentamos nossa velocidade. A plasticidade envolve a idéia de que quanto mais demandamos nossas atividades cognitivas e cerebrais, mais temos capacidade de dar respostas.

O que quero dizer com isto é que, mesmo sem a incorporação de técnicas classificadas como de leitura dinâmica, aquele que se mantém empenhado e disciplinado nos estudos, naturalmente, aumentará cada vez mais a velocidade de leitura. Isto em termos neurofisiológicos.

Por outro lado, quanto mais estudamos, mais aumentamos o universo de informações intelectualmente apropriadas e o nosso universo semântico, o que tende a facilitar a apropriação de novas informações relacionadas. Trata-se do que venho chamando de fenômeno da “Aprendizagem em PG (progressão geométrica)”. E fundamentos para isto existem de sobra.

Basta pensar no modelo de aprendizagem segundo Jean Piaget, para quem este processo ocorre por meio da assimilação (checagem da relação entre o conhecimento novo e o já disponível) e da acomodação (apropriação do novo). Adotando as construções de Alexander Luria, clássico neuropsicólogo russo, quando estudamos um novo conhecimento relacionado ao que já sabemos ocorre o fenômeno do encurtamento da rota cognitiva, quanto à percepção e captura da informação.

Isto também resulta em aumento da velocidade de leitura.

Portanto, esta pretendida condição tende a aparecer de forma natural. E existem limites a serem respeitados.

Na realidade, o que estou a sustentar é que toda leitura é dinâmica. E este caráter dinâmico aumenta na medida em que avançamos em determinado objeto de conhecimento.

Por exemplo, a minha leitura de textos sobre Direito ou Processo do Trabalho é mais dinâmica que de textos sobre Direito e Processo Penal. Da mesma forma, a minha leitura sobre textos de psicologia cognitiva e neurociência é mais dinâmica que de textos de psicanálise (mesmo tendo simpatia pelo tema, não tive condições de investir muitos estudos nas construções de origem freudiana). Ainda no mesmo sentido, os textos que leio sobre gerenciamento de projetos e finanças tendem a contar com um dinamismo maior que os textos sobre outras áreas da gestão, dada a formação que tenho também na referida área.

E exatamente neste sentido, os psicólogos cognitivos antes mencionados (Michael W. Eysenck e Mark T. Keane), ao tratarem da velocidade da leitura, colocam que “…o tempo de fixação em uma palavra é afetado pela quantidade de processamento semântico que é exigida para entender a palavra no contexto de sua frase…(ibdem, p. 274).

Contudo, partindo da hipótese de que estou equivocado, ou seja, de que existem ganhos reais com a leitura dinâmica, em termos de velocidade, independente da plasticidade e da ampliação da base de informações apropriadas, as questões que se colocam são: (1) qual é o tamanho deste ganho? Existem indicadores e pesquisas com parâmetros estatísticos precisos e amarrados que tenham mensurado? (2) quanto custa, em termos de esforços processuais e de tempo, o investimento para o domínio da técnica?

Se o resultado da equação for positivo, vá em frente! Se não, siga o caminho do avanço natural.

O certo é que não se pode buscar o presente recurso sem uma avaliação racional, ponderada, pessoal e subjetiva.  O fundamental é sempre procurar ter racionalidade na implementação de esforços, avaliando a eficiência de cada caminho adotado. 

Artigo escrito por Rogério Neiva , extraído do site www.concursospublicos.pro.br

 

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